03/12/10

"As Intermitências da Morte" e o "Evangelho segundo Jesus Cristo"


"(...) e é possível que esta noite, depois de jantar, abra a suite de bach sobre o atril, respire fundo e roce com o arco as cordas para que a primeira nota nascida  o venha consolar  das incorrigíveis banalidades do mundo e a segunda  as faça esquecer se pode , o solo terminou já, o tutti  da orquestra cobriu o último eco do violoncelo,  e o xamã, com um gesto imperioso da batuta, voltou ao seu papel de invocador e guia dos espíritos sonoros. A morte está orgulhosa do bem que o seu violoncelista tocou. (...) "
(José Saramago, "As Intermitências da Morte" : 189 - Leya-bis)

"(...) Porém, a noite, calma e distante, alheada dos seres e das coisas, com essa suprema indiferença que imaginamos ser do universo, ou a outra, absoluta, do vazio que restar, se algo o vazio pode ser, quando estiver cumprido o último fim de tudo, a noite ignorava o sentido e a ordem razoável que parecem reger este mundo nas horas que ainda acreditamos ter sido ele feito para receber-nos, e à sua loucura (...)" :120

"(...) Quando chegará, Senhor, o dia em que virás a nós para reconheceres os teus erros perante os homens.": 144
(José Saramago, "O Evangelho segundo Jesus Cristo" ed. Caminho, 1991)

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